Freud: bebendo na fonte desde o começo

Na época em que fui estudante do UniCEUB, li pouco Freud por incrível que pareça. Na realidade, isso ocorreu provavelmente porque tive contato com a Psicanálise na disciplina Psicologia do Desenvolvimento, mais precisamente no segundo semestre. Naquela ocasião, li apenas livros introdutórios sobre a teoria, nenhum do próprio Freud. Reencontrei a Psicanálise em Psicologia da Personalidade e então finalmente tive contato com alguns textos. Depois disso, o curso nada mais me proporcionou sobre o pai da Psicanálise.

Recentemente, uma pessoa me solicitou uma sugestão de leitura introdutória da Psicanálise. Apesar da minha experiência da graduação, acredito que é possível recomendar uma introdução à teoria através dos escritos do próprio Freud. Trata-se de “Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”, divididas em três partes nos volumes XV e XVI e publicadas na Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Essas conferências foram dirigidas a um público que (supostamente) nada sabia sobre Psicanálise.

A parte I é sobre Parapraxias e baseada no “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, livro de Freud que atingiu maior popularidade na época, além de algumas referências aos chistes. A parte II, intitulada Sonhos, é uma síntese atualizada de “A Interpretação dos Sonhos” e do artigo “Sobre os Sonhos”. Portanto, o volume XV aborda, em 240 páginas, a primeira fase da teoria psicanalítica.

A parte III, chamada Teoria Geral das Neuroses, tem como objeto de estudo temas desconhecidos do público leigo. Mas, não por isso, Freud é menos cauteloso em apresentar sua teoria. Na realidade, a neurose é o tema central da Psicanálise, o que torna esse livro uma compilação extremamente esclarecedora das principais idéias de Freud até a data da publicação (1916). Muito foi publicado na coleção Standard após essas conferências, mas acredito que nada tão conveniente para quem deseja estabelecer os primeiros contatos com a Psicanálise através do próprio Sigmund Freud.

A respeito do quanto os textos de Freud são acessíveis ao público em geral, pretendo escrever em breve sobre a nova tradução de suas Obras Psicológicas, publicadas pela mesma Imago, sob a coordenação de Luiz Alberto Hanns. Essa tradução acaba de concluir a primeira etapa: o eixo temático “Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente”.

Novas Famílias: é bom mesmo!

Depois de um primeiro post sobre a nova série que discute as famílias atuais, volto ao assunto…

Embora não tenha sido fácil esperar até as 23h00, ontem assisti a série da GNT Novas Famílias (Giros Produções) e achei muito interessante. Antes de iniciar o programa, até continuei procurando mais informações sobre a série no próprio site da GNT, mas ou eu não fui capaz de encontrar ou realmente o programa foi preterido na divulgação pela internet.

De qualquer forma, tive uma impressão muito boa. Como outros projetos do Pitching GNT, gostei muito da abordagem, baseada em depoimentos de casais e de profissionais da área Psi. Novas Famílias não tem um tom pragmático ou doutrinador. Convida o telespectador a escutar diversos pontos de vista sobre quem é a família contemporânea e quais os seus anseios. Outra surpresa positiva foi a participação muito oportuna de Terezinha Féres-Carneiro, professora da PUC-RJ.

Ontem o episódio tratou de casais, de todas as idades, heterossexuais e homossexuais, hitechs e lowtechs, enfim, sem discriminação. Esse formato de produção da GNT me faz lembrar a séries Nós e Elas/Nós e Eles (produtora Panorâmica), também com uma idéia de discutir temas ligados a relacionamento de maneira leve e sensível. A série é muito proveitosa para as pessoas que buscam um entendimento sobre as interações conjugais e familiares. Infelizmente, só está disponível em canais por assinatura. Olhei agora no site da Sky que os horários alternativos são Sab/13h00 e Dom/14h00.

Curiosamente, hoje é o último dia para a postagem de projetos para a quinta edição do Pitching, que deve oferecer em 2008 novas produções de qualidade.

Desafios da clínica psicológica – Parte III

Uma demanda recorrente na clínica infantil é a falta de autoridade dos pais.

Vivemos há alguns anos um período durante o qual era proibido proibir. As mães eram orientadas a não dizer “não” às crianças, sob o receio de traumatizá-la e cercear sua liberdade de expressão e criatividade.

Recentemente, vêm sendo discutida uma posição contrária, que ressalta a importância do limite. Talvez porque a sociedade vem sofrendo com as afrontas à liberdade e à recorrência de atos infracionais cometidos por pessoas a cada dia mais novas e algumas vezes mais cruéis.

Particularmente, acredito que devemos buscar um equilíbrio entre a liberdade e o limite, e o resgate da autoridade dos pais é fundamental para que isso ocorra. A autoridade não necessita ser acompanhada da violência, nem tampouco de comportamentos tiranos. A autoridade dos pais é, no meu entendimento, a segurança do limite, da continuidade da relação e da continência dos pais.

Validar a autoridade dos pais é um desafio da clínica psicológica porque engloba várias sub-avaliações e cuidados, tais como:

  • Como os pais exercem a autoridade? De maneira agressiva e exclusivamente punitiva? Existe respeito e amor entre as pessoas ou a autoridade é mantida pelo medo?
  • Existe coerência e concordância entre os membros da família quanto ao que pode e quanto ao que não é aceitável?
  • A autoridade exercida pelos pais resiste à verdade dos filhos?
  • Os papéis estão claros na família?
  • Os pais têm condições de exercer a autoridade (disposição e disponibilidade) ou necessitam de ajuda (profissional ou de familiares/amigos)?

Quando necessária ajuda profissional, o psicólogo deve estar atento para não extrapolar os limites da sua competência profissional e deve estimular que os membros sejam capazes de reconhecer a competência da própria família em resolver seus conflitos, fortalecendo a confiança entre eles e legitimando o seu sucesso, quando as coisas se restabelecem.

Programas de TV como “Mothern” e “Paidecendo no paraíso” vêm em resposta às incontáveis expectativas e satisfações que os pais modernos devem corresponder para vencerem a insegurança e se convencerem de que são capazes de ter uma família saudável. O excesso de manuais e exigências podem enfraquecer a auto-confiança deles, minar a intuição e a criatividade na resolução de conflitos e ser nocivo a toda a família.

Sobre esse tema, gostaria de indicar um livro com o qual fui presenteada há alguns anos pelo avô de um garoto muito querido que atendi. Nunca vi citações desse livro na literatura psicológica, mas considerei uma leitura muito especial para quem aprecia essa temática ou tem interesse em conhecer o conceito de presença parental. Chama-se: “Autoridade sem violência – o resgate da voz dos pais”, de Haim Omer, Ed. ArteSã.

Espero que os psicólogos aproveitem as indicações e que os pais sintam-se valorizados e confiantes para exercerem a autoridade que lhes cabe, com amor e determinação.

Christiane Kanzler