Discussão acerca do treino precoce do uso do banheiro

5 novembro, 2007 | por Christiane Kanzler |

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Devido à recorrência de queixas no consultório em relação ao treino dos esfíncteres (como casos de encoprese e enurese), resolvi ampliar a minha pesquisa sobre o assunto.

Nessa pesquisa, encontrei um livro que recomendo por ser muito interessante: “Transtornos da Excreção – Enurese e Encoprese”, da coleção Clínica Psicanalítica, Ed. Casa do Psicólogo, escrito por Marcia Porto Ferreira.

Essa leitura reforçou a minha necessidade de trazer esse tema ao blog. Como o livro aborda várias questões, como as práticas do treinamento do asseio esfincteriano das crianças, as contribuições da psicologia do desenvolvimento, da pediatria, da psiquiatria e diversas tendências da psicanálise que se interessaram por essa temática, escolhi um tema para enfatizar: o treino precoce dos esfíncteres.

Segundo a autora, os primeiros educadores a se dedicarem a essa questão datam do fim do século XIX. Esses pedagogos recomendavam que as crianças fossem colocadas no vaso sanitário após cada mamada, após seu terceiro dia de vida! Isso demonstrava uma rigorosa e precoce disciplinarização dos corpos das crianças.

Entretanto, com a compreensão de que a criança precisa de um aparato motor bem coordenado para ter sucesso nesse treino, os pais e os educadores passaram a ser mais tolerantes em relação às expectativas. Atualmente, pode-se dizer que a psicologia do desenvolvimento espera que as crianças de até 5 anos alcancem a aquisição do controle de urina durante a noite e, entre 2 anos e meio a 3 anos, a aquisição do controle durante o dia (posição relativizada por alguns autores).

Arminda Aberastury é citada pela autora como defensora da posição de que o treino dos esfíncteres não deve ser iniciado antes dos 2 anos, relatando que todos os pacientes enuréticos que atendeu ou teve conhecimento foram submetidos a um precoce e severo treino dos esfíncteres. Além disso, recomenda que a aprendizagem seja realizada pela pessoa que tenha um vínculo afetivo com a criança, para minimizar ansiedades. O nível de exigência deve ser estável e, uma vez iniciado, o treino não deve ser interrompido.

Lebovici & Soulé aconselham que esse treino não seja iniciado antes que a motricidade seja estabelecida por completo e Françoise Dolto defende uma aquisição natural e espontânea do controle esfincteriano, pois acredita que a criança deseja, pode e tem prazer em controlar seus esfíncteres. Assim, a criança aprende a se disciplinar por necessidade.

Para Dolto, o treino precoce não é educativo, mas mutilador. As crianças submetidas a ele podem apresentar atraso em relação ao esquema corporal na imagem do corpo.

Com base nos autores pesquisados para elaboração do livro citado (que me permito corroborar), é indiscutível a repercussão negativa do treino precoce no desenvolvimento infantil.

Isso não quer dizer que os pais não devam apoiar a independência da criança no uso do sanitário ou do penico, mas esse momento deve acompanhar as condições motoras e afetivas da criança.

Uma vez iniciado é importante que não seja interrompido e a criança envolvida deve receber essa estimulação em todos os ambientes que convive (sua casa, casa dos familiares, escola,…), reforçando a necessidade de tolerância para os pequenos incidentes que podem ocorrer até a conclusão do treino.

 

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