Li recentemente o perturbador livro 1984, de George Orwell. Este livro é interessante sob vários aspectos:
- Eu nunca tinha visto nada tão aterrorizante desde Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (não cheguei a ler o livro que inspirou o filme). Contudo, de semelhante existe apenas que, em ambos os filmes, os personagens centrais são submetidos a métodos cruéis de “recuperação”.
- Em vários momentos, lembrei-me também de Farenheit 451, de François Truffaut (também não li o livro que inspirou o filme). Seja pelo caráter subversivo dos personagens principais, como pela política de supressão de ideias/pensamentos estabelecida pelos governos. No entanto, “1984″ é evidentemente pessimista, ao contrário da mensagem final de “Farenheit”.
- Há uma inequívoca semelhança entre os termos duplipensar (double think), de George Orwell, e duplo vínculo (double bind), de Gregory Bateson (pensador sistêmico). Embora eu não tenha encontrado nenhuma relação bem desenvolvida entre esses termos, eu diria que o duplipensar é o duplo vínculo levado às últimas consequências, de uma forma flagrantemente cruel e destrutiva.
Recomendo este livro para qualquer pessoa que tenha interesse por psicologia, política… ou simplesmente vontade de ler algo crítico e provocante. (Indico a compra do volume com o apêndice da Novilíngua [Newspeak]). Vou deixar aqui um texto de Moacyr Scliar sobre Orwell, publicado em 2003 no Zero Hora e tirado do site da Livraria Cultura:
Zero Hora / Data: 28/6/2003
Atualidade de Orwell. Há 100 anos, nascia o autor britânico, célebre por sua veia antitotalitarista.Moacyr Scliar A grande consagração de um escritor ocorre quando seu nome se transforma em adjetivo. Todo mundo, mesmo quem não leu Kafka, sabe o que quer dizer kafkiano. Há um adjetivo menos conhecido, mas também clássico: orwelliano. Alude à obra de George Orwell, pseudônimo de Eric Blair, cujo centenário de nascimento ocorreu neste 25 de junho. A vida de Orwell é daquelas que daria um romance (de fato, boa parte de sua obra é autobiográfica). Nascido na Índia, filho de um funcionário da administração colonial britânica, Orwell conheceu desde o berço o poder imperial, com o qual tinha, como mais tarde se veria, uma relação ambivalente. Educado em Eton, interrompeu os estudos depois de um patético incidente: fez uma espécie de maldição vudu (aquela de enfiar alfinetes em um boneco) contra um colega rival para que este quebrasse a perna. Tétrica coincidência: o rapaz realmente teve uma fratura – causada por câncer, do qual veio morrer. Cheio de culpa, Orwell foi para Burma, também colônia inglesa, onde tornou-se policial. Dessa experiência resultou um ensaio notável, ‘Matando um Elefante’, em que descreve como, diante da população de uma aldeia, teve de matar um desses animais. Deixando Burma, passou vários anos de pobreza na Europa, um período que evoca em Down and Out in Paris and London (1933). Começa então a publicar ficção. Nos anos 30, passa por uma experiência importante: alista-se, como voluntário, nas tropas republicanas que lutavam contra Franco na Guerra Civil espanhola, onde inclusive foi ferido. É aí que ocorre sua ruptura com o comunismo: os stalinistas tentavam então eliminar seus aliados num daqueles “acertos de contas” que não eram raros na esquerda, e contra os quais Orwell revoltou-se, pagando o preço: teve de fugir para salvar a vida. Desse sombrio período dá testemunho no importante Homage to Catalonia (1938): “Na Espanha eu vi, de fato, a História sendo escrita não como realmente aconteceu, mas como deveria ter acontecido, de acordo com a linha do Partido.” A partir daí, sua vocação antitotalitária se afirmaria, e também seu isolamento. Estigmatizado pela esquerda, ficou tão paranóico que chegou a comprar (de Ernst Hemingway) um revólver, para se defender de possíveis atentados. Ele e a esposa Eileen foram morar numa remota ilha escocesa, onde criava gatos e cachorros. Apesar do choque causado pela morte de Eileen, terminou, nessa época, A Revolução dos Bichos (Animal Farm), que, publicado no início da guerra fria entre o Ocidente e os países comunistas, revelou-se enorme sucesso. No conflito entre os blocos, Orwell desempenhou um papel ambíguo: colaborou com o serviço secreto inglês, a quem entregou, em 1948, uma lista de 35 “cripto-comunistas”. É verdade que nenhum deles chegou a ser prejudicado, mas Orwell ficou, de qualquer maneira, rotulado como delator. Àquela altura, já estava muito doente, da tuberculose que afinal viria a matá-lo. Mesmo assim embarcou no grande projeto de sua vida, a novela 1984. Embora Orwell não seja exatamente um grande ficcionista – estava mais preocupado em transmitir mensagens – pode-se dizer que tanto A Revolução dos Bichos quanto 1984 marcaram o nosso tempo. As duas obras falam de totalitarismo, a primeira sob forma de uma satírica fábula (quase se pode ouvir a voz de La Fontaine nos bastidores), a segunda como uma distopia, a utopia vista como pesadelo: a síntese do stalinismo, que acabou por destruir os ideais da Revolução Russa de 1917 e por comprometer, até hoje, o conceito de esquerda. Expressões como Big Brother – sim, telespectadores, é daí que vem o título do programa famoso – e frases como “Todos são iguais, mas alguns são mais iguais” passaram à linguagem cotidiana. Cinqüenta e três anos depois da morte de Goerge Orwell, a vendagem de seus livros ultrapassa 40 milhões de exemplares, em 60 idiomas, e ele continua em alta: a cada ano, 1 milhão de novos leitores descobre sua obra. Num mundo em que o autoritarismo sob variadas formas continua ainda presente, a mensagem de Orwell permanece atual.