Bonecos como objetos transicionais – Parte I

Os bonecos inspiram muitas histórias infantis, entre as quais podemos citar: Pinóquio, The Velveteen Rabbit, Winnie The Pooh, Toy Story. Mas por que os bonecos ganham vida e tanta importância nos quartos das crianças?

Pegando carona no post do pediatra Jorge Montardo (link no último parágrafo), gostaria de conversar um pouco sobre esses bonecos e o conceito de objeto transicional, de Donald Winnicott. Este psicanalista fala do objeto transicional como uma experiência intermediária para a criança, algo que ocorre na área entre “o polegar e o ursinho, entre o erotismo oral e a verdadeira relação de objeto, entre a atividade criativa primária e a projeção do que já foi introjetado, entre o desconhecimento primário de dívida e o reconhecimento desta”.

Andy - Toy Story

O objeto (normalmente fralda ou bicho de pelúcia) do qual Winnicott fala costuma aparecer na hora de dormir e surge como uma defesa contra a ansiedade do tipo depressiva. Mas o que quero enfatizar aqui é que o objeto transicional precisa ser usado e gasto pelo uso diário (é muitas vezes inclusive babado). E destituir o objeto das suas propriedades designadas pelo brincar da criança pode introduzir uma ruptura de continuidade na experiência do bebê, como diz o próprio Winnicott.

Pois bem, agora escolho analisar uma das histórias que mencionei acima: Toy Story, dos Estúdios de Animação Pixar. O Toy Story 2 fala de um dilema do herói Woody, o boneco cowboy do garoto Andy. Woody não sabe se deve ficar com os demais brinquedos da sua coleção em um museu, onde será para sempre preservado na caixa, ou se deve retornar à casa de Andy e ser usado e gasto até um dia ser esquecido. (Para quem assistir Toy Story: repare que, em ambos os filmes, Andy procura os seus bonecos antes de sair e dormir, tal como as crianças fazem com os seus objetos transicionais).

Embora eu não esteja certo se John Lasseter, diretor do filme, já leu D. Winnicott, posso dizer que o filme retrata muito bem como se dá para a criança (ou bebê) a experiência de brincar até impregnar o boneco com suas próprias marcas. Ah, todos os bonecos de Andy tem o nome dele na sola do sapato. E por tudo o que quero dizer com o uso pelo brincar, não posso deixar de listar algumas das qualidades atribuídas ao objeto transicional por Winnicott:

  1. O objeto é afetuosamente acariciado, bem como excitadamente amado e mutilado
  2. Ele nunca deve mudar, a menos que seja mudado pelo bebê
  3. Deve sobreviver ao amar instintual, ao odiar também e à agressividade pura, se esta for uma característica
  4. Contudo, deve parecer ao bebê que lhe dá calor, ou que se move, ou que possui textura, ou que faz algo que pareça mostrar que tem vitalidade ou realidade próprias
  5. Ele é oriundo do exterior, segundo nosso ponto de vista, mas não o é, segundo o ponto de vista do bebê. Tampouco provém de dentro; não é uma alucinação.

Fonte: “O Brincar e a Realidade” (D. W. Winnicott/Imago Editora)

Pretendo dar continuidade ao tema com a história The Velveteen Rabbit no próximo post. Até lá recomendo que leiam também o post “Objeto de transição: o famoso cheirinho“, já citado, do blog Aprendendo a Vida.

Continua em Bonecos como objetos transicionais – Parte II

2 comments to Bonecos como objetos transicionais – Parte I

  1. Andre Pinheiro disse:

    Acho que o mesmo acontece comigo e com meus gadgets.

  2. Vladimir Melo disse:

    Pois é! Quem sabe não vem por aí algum estudo sobre os brinquedos eletrônicos como objetos transicionais. Seu depoimento será precioso.

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