
O volume 16 das Obras Completas de Sigmund Freud, publicado em 2011 pela Companhia das Letras e traduzido por Paulo César de Souza, compreende um período no qual se observa uma nova postura de Freud diante da própria obra. Embora ele sempre tenha reorganizado seus pensamentos de tempos em tempos, de 1923 em diante isso se dá com maior segurança frente ao novo modelo de aparelho psíquico. Já com a saúde debilitada, Freud resolveu então fazer um trabalho de aparar as arestas da sua teoria, se é que se pode afirmar que ela foi uma só, e retomou os principais pontos para fazer as suas considerações (quase) definitivas.
Naquela época, a psicanálise já tinha um número de adeptos que assegurava o seu futuro como campo de conhecimento. Por isso, Freud não precisava mais apresentar a psicanálise com a preocupação de defendê-la, mas apenas com o propósito de iluminar os caminhos que deveriam ser seguidos por seus sucessores. E, de fato, esse era o seu grande interesse, pois havia se decepcionado com vários discípulos e tinha notícia de que a psicanálise se espalhara de maneira perigosa nos Estados Unidos.
O Eu e o Id é um dos textos mais importantes de Freud e representou a composição de todas as suas teorias até então: inconsciente/consciente, Eu/Id e instinto de vida/instinto de morte foram enfim concatenados numa intrincada descrição de aparelho psíquico. As suas descobertas tardias (Super-eu e instinto de morte) se revelaram as duas peças que faltavam ao quebra-cabeças em que Freud trabalhou incansavelmente por várias décadas. O Eu e o Id foi a resposta tão aguardada a diversos questionamentos levantados em ensaios anteriores, especialmente em Além do Princípio do Prazer, e certamente também foi decisivo para uma compreensão mais ampla acerca do mal-estar social.
O Autobiografia é mais um dos textos em que Freud resume os seus principais achados. É interessante notar neste volume a gratidão que Freud tinha por Charcot e Breuer, especialmente pelo último, que sacrificou parte do seu prestígio em nome da estreita ligação que desenvolveu com Freud. Não há dúvida que foram esses os grandes mestres que o ensinaram a tratar a histeria, mesmo abandonando a hipnose e o tratamento catártico, pois Freud considerava o método psicanalítico uma espécie de evolução das terapias sugestivas.
Nesse período, Freud também retomou a questão da dissolução do complexo de Édipo nas meninas, considerada por muitos especialistas uma pedra no sapato da teoria freudiana e, num dado momento, ele de fato reconheceu os pontos obscuros que impediam o profundo entendimento dessa situação.
Entre os textos de 1923-1925, há dois que de maneira curiosa se relacionam. Em 1923, Freud escreveu que suas ideias sobre a importância dos sonhos para o psiquismo haviam sido reveladas em parte por Popper-Lynkeus, pouco tempo antes da publicação de A Interpretação dos Sonhos. Essa enorme coincidência chamou a atenção de Freud num tempo em que ele examinava fenômenos supostamente sobrenaturais conhecidos como ocultismo, especialmente a telepatia, como se pode ver no artigo imediatamente anterior nessa edição, O significado ocultista dos sonhos (1925). Um dos textos sobre sonhos do volume 16 era para ter sido incluído numa reedição de A Interpretação dos Sonhos, mas por fim foi deixado à parte. Ao mesmo tempo em que Freud faz observações sobre a interpretação dos sonhos e recomendações aos analistas, afirma uma vez mais que a compreensão dessa atividade psíquica foi fundamental para que a psicanálise figurasse na ciência não apenas como uma teoria psicopatológica, mas como uma teoria do aparelho psíquico.
Freud formulou cada texto como quem transmite um legado à sociedade. A partir daquele período, ele deixou aos seus discípulos a tarefa de desenvolver a psicanálise como uma terapia destinada a neuróticos (e psicóticos). A grande produção psicanalítica de Freud depois de 1925 foi voltada à compreensão da sociedade, especialmente através da religião e da cultura e sob o ponto de vista do conflito entre as forças de vida e morte.