[Cosac Naify] Lançamento de “Luto e Melancolia”, de Sigmund Freud, traduzido por Marilene Carone

No dia 8/2, quarta-feira, às 19h30, a Cosac Naify e a Livraria da Vila promovem o lançamento de Luto e melancolia, de Sigmund Freud, traduzido por Marilene Carone. Na ocasião haverá um debate com o escritor e tradutor Modesto Carone, a psicanalista Maria Rita Kehl e o professor André Carone.

Em Luto e melancolia, Freud compara a experiência do luto ao que em sua época era chamada de “melancolia” e hoje é identificado como “depressão”. No luto, a perda de um ente querido faz com que sintamos um “vazio” temporário em nossos afetos. Com o decorrer do tempo, recuperamos a capacidade de redirecionar nossos afetos. No estado melancólico, a experiência da perda tem a mesma dimensão, mas não se sabe o que se “perdeu” e nem o porquê, ou seja, o processo de perda é inconsciente.

A presente edição contém a íntegra da tradução pioneira realizada pela psicanalista Marilene Carone (1942-1987), falecida precocemente enquanto se preparava para verter diretamente do alemão as obras de Freud depois de constatar as insuficiências da tradução brasileira feita a partir da Standard Edition inglesa. Completam essa edição “Marilene Carone, tradutora de Freud”, escrito por seu marido Modesto Carone, e dois textos inéditos das psicanalistas Maria Rita Kehl e Urania Tourinho Peres, autoras de estudos que põem na ordem do presente as questões abordadas por Freud – a depressão tornou-se a grande patologia de hoje, alimentando parte considerável da indústria dos psico-fármacos.

Livraria da Vila – Pátio Higienópolis
Av. Higienópolis, 618, São Paulo – SP
Mais informações: (11) 3660-0230

 

Fonte: http://editora.cosacnaify.com.br/EditoraAgenda/2012/2/Agenda.aspx#232

Consultório mínimo de psicologia

Recebo quase todos os dias comentários neste blog me perguntando sobre como começar a montar um consultório de psicologia. Sempre tento deixar aqui algumas sugestões simples e práticas. Segue uma breve lista de serviços e objetos indispensáveis em um consultório:

Objetos/Móveis

  • Telefone com secretária eletrônica
  • Conjuntos de sofás (para a sala de atendimento e, se possível, recepção) e cadeiras (recepção)
  • Mesa e cadeira
  • Computador e impressora
  • Armário com chave (para guardar documentos e, se for o caso de atendimeno infantil, outro para guardar brinquedos)
  • Lixeiras (para a sala de atendimento, recepção e banheiro)
  • Bebedouro ou purificador de água
  • Circulador de ar ou ar condicionado
  • Revisteiro

Serviços

  • Contabilidade
  • Motoboy
  • Provedor de internet e conta de telefone

Além disso, existem os gastos fixos: condomínio, aluguel, IPTU, anuidade do CRP e ISS.

Este post é a atualização de um outro publicado em julho de 2011: O que um consultório de psicologia deve ter

[El País] Estados Unidos já reconhece que homens são vítimas de abuso sexual

Durante oito décadas, a definição de abuso sexual nos Estados Unidos foi a mesma. O governo federal e o FBI só têm aceitado tradicionalmente uma descrição: “A relação carnal de uma mulher à força contra sua vontade”. Isso mudou na sexta-feira. O Departamento de Justiça apresentou uma nova definição oficial, mais ampla, que inclui os homens entre as vítimas e que elimina a condição de que as mulheres tenham resistido fisicamente aos agressores.

A partir de agora, nas investigações dos agentes do FBI, a polícia judicial, o abuso sexual será entendido como “penetração, por leve que seja, da vagina e do ânus com qualquer parte do corpo ou objeto, ou penetração oral pelo órgão sexual de outra pessoa, sem o consentimento da vítima”. No último ano de que se tem dados, 2010, o FBI registrou 84.767 abusos sexuais nos Estados Unidos. Essa cifra, com a nova definição, aumentará de forma considerável a partir de 2012.

Notícia publicada em 08 de janeiro de 2012.

Link da notícia no El País

[Resenha] Eichmann em Jerusalém: uma visão crítica sobre o holocausto

A cobertura que Hannah Arendt realizou do julgamento do nazista Adolf Eichmann para o jornal New Yorker transformou-se num polêmico livro, publicado originalmente em 1963, que aborda sob vários aspectos o modus operandi da política de extermínio de judeus colocada em prática pelos alemães durante a Segunda Guerra. De maneira lúcida e destemida, a judia Hannah Arendt tece comentários sobre o espetáculo montado em Jerusalém, no qual o papel de Eichmann já havia sido determinado muito antes de seu julgamento. No Brasil, o livro Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal foi lançado em 1999 pela Companhia das Letras, com tradução de José Rubens Siqueira.

O livro é dividido em vários momentos. Aos poucos, a autora explica da melhor forma possível como era composta a emaranhada hierarquia militar do Terceiro Reich. Os livros e documentos a que Hannah Arendt teve acesso não apontam que Eichmann ocupava a posição de poder a ele atribuída pela acusação; relatam, entre tantas coisas, de que maneira as lideranças judaicas participaram no processo de “limpeza” do seu próprio povo e como certos países resistiram com sucesso às solicitações nazistas de deportação e assim salvaram milhares de judeus. Apesar das 344 páginas, o leitor não sofrerá de uma leitura maçante, dada a alternância entre a narrativa sobre os passos alemães de expatriação e extermínio dos judeus e a crítica mordaz a respeito dos argumentos da defesa e da acusação, que não forneciam aos presentes um panorama fiel dos acontecimentos nem dos personagens.

O subtítulo do livro é Um relato sobre a banalidade do mal, tirado da ideia de que Adolf Eichmann, ao contrário do que a acusação insistia em demonstrar, era uma pessoa normal, sem a expressão diabólica esperada de um oficial nazista. Apesar de apontar traços de mediocridade na personalidade de Eichmann, Hannah Arendt destaca, através da história e de algumas declarações do réu, que não há como deixar de notar a coerência de suas atitudes. Por outro lado, o livro apresenta uma série de trapalhadas do governo israelense — inclusive a forma como se deu o rapto de Eichmann em Buenos Aires —, que fez de tudo, até mesmo distorcer a história, para encarnar Hitler na pessoa do réu.

Com estudo profundo em regimes totalitaristas, Hannah Arendt escreve com incrível desenvoltura e acidez, tratando de acusar todos os envolvidos, de ambos os lados, e acima de tudo sem perder a sensibilidade que exige o tema. O interesse em relação ao livro pode surgir por todos os lados: pela questão dos direitos internacionais, violados por nazistas e judeus; pelo relato histórico a respeito de como ocorriam os processos de expulsão, deportação e morte em massa dos judeus; pela análise da personalidade de um criminoso, que em muito se parecia com o pensamento em vigor naquela Alemanha; pelo cenário político do pós-guerra, que levou à criação do Estado de Israel e que fez daquela situação uma oportunidade única para a execução de um bode expiatório. Certamente, existem outros pontos de vista que podem ser levantados e que tornam essa discussão mais ampla. Seja como for, este é um livro importantíssimo — escrito por uma das mentes mais notáveis do século XX — para quem deseja conhecer a história do povo judeu e do totalitarismo (tema cuja análise já havia lhe rendido enorme prestígio com a publicação de As origens do totalistarismo).

A psicologia não pode deixar de observar o pretexto usado por Hitler, em 1939, para dar legitimidade à tecnologia empregada anos depois na “Solução Final”. A morte nas câmaras de gás foi introduzida como um método de eutanásia para deficientes mentais e físicos. A filósofa Hannah Arendt manifesta no livro preocupação de que, futuramente, sob qualquer alegação, uma prática médica de morte semelhante possa ser respaldada e adotada em massa, com tecnologia e impacto absurdamente maiores. De acordo com esta reportagem sobre o holocausto, há de se perceber que o bem e o mal são separados por uma distância menor do que se pode imaginar, o que põe por terra a ideia amiúde difundida de que algoz e vítima detêm naturezas tão diferentes. A questão da consciência é a todo instante evocada, problematizada e colocada face a face com a concepção de justiça.

[Resenha] Obras Completas de Sigmund Freud (1923-1925), volume 16

O volume 16 das Obras Completas de Sigmund Freud, publicado em 2011 pela Companhia das Letras e traduzido por Paulo César de Souza, compreende um período no qual se observa uma nova postura de Freud diante da própria obra. Embora ele sempre tenha reorganizado seus pensamentos de tempos em tempos, de 1923 em diante isso se dá com maior segurança frente ao novo modelo de aparelho psíquico. Já com a saúde debilitada, Freud resolveu então fazer um trabalho de aparar as arestas da sua teoria, se é que se pode afirmar que ela foi uma só, e retomou os principais pontos para fazer as suas considerações (quase) definitivas.

Naquela época, a psicanálise já tinha um número de adeptos que assegurava o seu futuro como campo de conhecimento. Por isso, Freud não precisava mais apresentar a psicanálise com a preocupação de defendê-la, mas apenas com o propósito de iluminar os caminhos que deveriam ser seguidos por seus sucessores. E, de fato, esse era o seu grande interesse, pois havia se decepcionado com vários discípulos e tinha notícia de que a psicanálise se espalhara de maneira perigosa nos Estados Unidos.

O Eu e o Id é um dos textos mais importantes de Freud e representou a composição de todas as suas teorias até então: inconsciente/consciente, Eu/Id e instinto de vida/instinto de morte foram enfim concatenados numa intrincada descrição de aparelho psíquico. As suas descobertas tardias (Super-eu e instinto de morte) se revelaram as duas peças que faltavam ao quebra-cabeças em que Freud trabalhou incansavelmente por várias décadas. O Eu e o Id foi a resposta tão aguardada a diversos questionamentos levantados em ensaios anteriores, especialmente em Além do Princípio do Prazer, e certamente também foi decisivo para uma compreensão mais ampla acerca do mal-estar social.

Autobiografia é mais um dos textos em que Freud resume os seus principais achados. É interessante notar neste volume a gratidão que Freud tinha por Charcot e Breuer, especialmente pelo último, que sacrificou parte do seu prestígio em nome da estreita ligação que desenvolveu com Freud. Não há dúvida que foram esses os grandes mestres que o ensinaram a tratar a histeria, mesmo abandonando a hipnose e o tratamento catártico, pois Freud considerava o método psicanalítico uma espécie de evolução das terapias sugestivas.

Nesse período, Freud também retomou a questão da dissolução do complexo de Édipo nas meninas, considerada por muitos especialistas uma pedra no sapato da teoria freudiana e, num dado momento, ele de fato reconheceu os pontos obscuros que impediam o profundo entendimento dessa situação.

Entre os textos de 1923-1925, há dois que de maneira curiosa se relacionam. Em 1923, Freud escreveu que suas ideias sobre a importância dos sonhos para o psiquismo haviam sido reveladas em parte por Popper-Lynkeus, pouco tempo antes da publicação de A Interpretação dos Sonhos. Essa enorme coincidência chamou a atenção de Freud num tempo em que ele examinava fenômenos supostamente sobrenaturais conhecidos como ocultismo, especialmente a telepatia, como se pode ver no artigo imediatamente anterior nessa edição, O significado ocultista dos sonhos (1925). Um dos textos sobre sonhos do volume 16 era para ter sido incluído numa reedição de A Interpretação dos Sonhos, mas por fim foi deixado à parte. Ao mesmo tempo em que Freud faz observações sobre a interpretação dos sonhos e recomendações aos analistas, afirma uma vez mais que a compreensão dessa atividade psíquica foi fundamental para que a psicanálise figurasse na ciência não apenas como uma teoria psicopatológica, mas como uma teoria do aparelho psíquico.

Freud formulou cada texto como quem transmite um legado à sociedade. A partir daquele período, ele deixou aos seus discípulos a tarefa de desenvolver a psicanálise como uma terapia destinada a neuróticos (e psicóticos). A grande produção psicanalítica de Freud depois de 1925 foi voltada à compreensão da sociedade, especialmente através da religião e da cultura e sob o ponto de vista do conflito entre as forças de vida e morte.