A cobertura que Hannah Arendt realizou do julgamento do nazista Adolf Eichmann para o jornal New Yorker transformou-se num polêmico livro, publicado originalmente em 1963, que aborda sob vários aspectos o modus operandi da política de extermínio de judeus colocada em prática pelos alemães durante a Segunda Guerra. De maneira lúcida e destemida, a judia Hannah Arendt tece comentários sobre o espetáculo montado em Jerusalém, no qual o papel de Eichmann já havia sido determinado muito antes de seu julgamento. No Brasil, o livro Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal foi lançado em 1999 pela Companhia das Letras, com tradução de José Rubens Siqueira.
O livro é dividido em vários momentos. Aos poucos, a autora explica da melhor forma possível como era composta a emaranhada hierarquia militar do Terceiro Reich. Os livros e documentos a que Hannah Arendt teve acesso não apontam que Eichmann ocupava a posição de poder a ele atribuída pela acusação; relatam, entre tantas coisas, de que maneira as lideranças judaicas participaram no processo de “limpeza” do seu próprio povo e como certos países resistiram com sucesso às solicitações nazistas de deportação e assim salvaram milhares de judeus. Apesar das 344 páginas, o leitor não sofrerá de uma leitura maçante, dada a alternância entre a narrativa sobre os passos alemães de expatriação e extermínio dos judeus e a crítica mordaz a respeito dos argumentos da defesa e da acusação, que não forneciam aos presentes um panorama fiel dos acontecimentos nem dos personagens.
O subtítulo do livro é Um relato sobre a banalidade do mal, tirado da ideia de que Adolf Eichmann, ao contrário do que a acusação insistia em demonstrar, era uma pessoa normal, sem a expressão diabólica esperada de um oficial nazista. Apesar de apontar traços de mediocridade na personalidade de Eichmann, Hannah Arendt destaca, através da história e de algumas declarações do réu, que não há como deixar de notar a coerência de suas atitudes. Por outro lado, o livro apresenta uma série de trapalhadas do governo israelense — inclusive a forma como se deu o rapto de Eichmann em Buenos Aires —, que fez de tudo, até mesmo distorcer a história, para encarnar Hitler na pessoa do réu.
Com estudo profundo em regimes totalitaristas, Hannah Arendt escreve com incrível desenvoltura e acidez, tratando de acusar todos os envolvidos, de ambos os lados, e acima de tudo sem perder a sensibilidade que exige o tema. O interesse em relação ao livro pode surgir por todos os lados: pela questão dos direitos internacionais, violados por nazistas e judeus; pelo relato histórico a respeito de como ocorriam os processos de expulsão, deportação e morte em massa dos judeus; pela análise da personalidade de um criminoso, que em muito se parecia com o pensamento em vigor naquela Alemanha; pelo cenário político do pós-guerra, que levou à criação do Estado de Israel e que fez daquela situação uma oportunidade única para a execução de um bode expiatório. Certamente, existem outros pontos de vista que podem ser levantados e que tornam essa discussão mais ampla. Seja como for, este é um livro importantíssimo — escrito por uma das mentes mais notáveis do século XX — para quem deseja conhecer a história do povo judeu e do totalitarismo (tema cuja análise já havia lhe rendido enorme prestígio com a publicação de As origens do totalistarismo).
A psicologia não pode deixar de observar o pretexto usado por Hitler, em 1939, para dar legitimidade à tecnologia empregada anos depois na “Solução Final”. A morte nas câmaras de gás foi introduzida como um método de eutanásia para deficientes mentais e físicos. A filósofa Hannah Arendt manifesta no livro preocupação de que, futuramente, sob qualquer alegação, uma prática médica de morte semelhante possa ser respaldada e adotada em massa, com tecnologia e impacto absurdamente maiores. De acordo com esta reportagem sobre o holocausto, há de se perceber que o bem e o mal são separados por uma distância menor do que se pode imaginar, o que põe por terra a ideia amiúde difundida de que algoz e vítima detêm naturezas tão diferentes. A questão da consciência é a todo instante evocada, problematizada e colocada face a face com a concepção de justiça.
