Sobre Ritalina, Prozac e outros remédios: Psicólogo, levanta-te e anda!

O periódico do Conselho Federal de Psicologia (CFP) número 102, publicado em outubro de 2011, aborda a questão da crescente medicalização como um fenômeno que preocupa a Psicologia. Segundo dados do IMS Health Brasil, 23,2 milhões de cápsulas de fluoxetina (antidepressivo também conhecido pelo nome comercial Prozac) foram vendidas em 2007, e entre janeiro e junho de 2011 esse número saltou para 34,6 milhões. O IMS-PMB – Pharmaceutical Market publicou um levantamento sobre as vendas de metilfenidato (conhecido pelo nome comercial Ritalina, usado para o tratamento de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade): 71 mil caixas vendidas em 2000 e 1,14 milhão vendidas em 2008.

Talvez os psicólogos devam fazer a sua mea culpa nessa estatística, pois muitas vezes cedem à expectativa social de oferecer respostas imediatas. O espetáculo midiático em torno dessas medicações exerce uma pressão enorme sobre os psicólogos, que não receitam a medicação mas fazem sua parte encaminhando muita gente aos psiquiatras e neurologistas. Existe aí uma grande oportunidade para o psicólogo investigar as causas desses transtornos, sobretudo mediante a psicologia profunda, através da qual o paciente pode alcançar respostas duradouras e esclarecedoras a respeito do seu mal-estar.

Não sou contra o uso da medicação, porém não há dúvida acerca da banalização dessa forma de tratamento. Infelizmente, encontro livros de psicologia e matérias de jornais e revistas em que a participação do psicólogo nem de perto acrescenta o que deveria. Em geral, ele lamentavelmente se coloca como coadjuvante do tratamento psiquiátrico, que por sua vez promove a ideia de que a “cura” depende dos avanços da indústria farmacêutica. O que de fato ocorre é o contrário: se o paciente não se entregar ao tratamento psicológico, de baixo custo a longo prazo, a perspectiva será permanecer refém da medicação a vida inteira.

A banalização da Ritalina

Diante da necessidade (inconsciente) dos adultos de se livrar dos filhos adolescentes, vejo a que ponto chegam os esforços para que os jovens passem o quanto antes em vestibulares ou concursos. Isso me faz acreditar que a capacidade da família contemporânea de conter e tolerar dificuldades está cada vez menor.

O neurologista Ricardo Teixeira, nosso colega de Planeta Saúde Brasil, tem denunciado uma espécie de dopagem da Ritalina, que consiste no uso do medicamento exclusivamente para obter ganho de desempenho em estudos e provas. Uma pesquisa feita em escolas do Brasil, citada pelo neurologista, constatou que apenas 23,7% das crianças que receberam o diagnóstico de TDAH realmente tinham o transtorno (segundo os critérios diagnósticos do DSM IV).

O médico também cita em artigo uma publicação da A Folha de São Paulo que divulga um estudo alarmante: 75% das crianças e adolescentes brasileiros que tomam remédios para déficit de atenção não cumprem os critérios diagnósticos para essa condição clínica.

Evidentemente, isso traz riscos e a imprensa já começa a chamar atenção para a questão. Deixo abaixo o link para uma matéria do portal G1, acredito que veiculada no Jornal Hoje, a respeito desse assunto: Ritalina é usada ilegalmente para “turbinar” o cérebro.